Mensagem


Era meia noite.

A garota andava de um lado para o outro do quarto. Ela estava de pé e mesmo depois de tanto tempo, não conseguia dormir. Seu celular estava na mesa ao lado dela. Ligou novamente para aquele número que tinha discado tantas vezes. Talvez fizesse parte de um ritual, mas já tinha decorado o número, e discou cada digito demoradamente.

Só para ouvir a voz dele mais uma vez:

“Você ligou para mim! Se quiser deixar um recado, tudo bem. Caso não queira, paciência. Bip”

Não disse nada e desligou o telefone. Achava que as lágrimas já tinham secado, mas descobriu que ainda conseguia chorar. Desabou em sua cama e se afundou no travesseiro. E lembrou.

***

Eram dois estranhos compartilhando uma mesa na starbucks mais próxima. Por um acaso do destino liam o mesmo livro, e aquilo serviu de estopim para uma discussão mais longa, que passou por gostos musicais, filmes favoritos e comidas preferidas, terminando com uma promessa de se encontrarem ali novamente e uma troca inocente de telefone.

Ela mal teve tempo de chegar em casa, quando o telefone tocou. Ela sabia que era ele. Mas deixou o telefone tocar um pouco, para fazer charme.

***

Fundamentalmente, os dois eram bem diferentes. Ele era ativista, ela preferia ficar em casa assistindo seus seriados. Ela gostava de literatura brasileira, ele sempre estava com um volume de algo escrito por Cornwell. Mas no fundo se complementavam. Ela ria das piadas sem graça que ele contava, da mensagem idiota que ele tinha gravada na agenda eletrônica, enquanto ele sempre estava sorrindo na companhia dela.

Ambos eram bem ocupados. Estudavam e trabalhavam e mal se viam. Trocavam milhões de mensagens pelo celular. Mas era no fim de semana que realmente viviam os melhores momentos de suas vidas. Nenhum dos dois podia reclamar. Eram realmente felizes e ninguém podia tirar aquilo deles.

***

Por isso foi um choque quando aconteceu. Estavam juntos quando ele reclamou de uma dor de cabeça súbita. Ela mandou ele ir ao médico. Ele achou besteira e voltou pra casa. Era só uma dor de cabeça a toa, já tinha acontecido antes. Ela ficou preocupada, mas assentiu. E estava em sua cama, meio sonolenta, quando o telefone tocou. A mãe dele estava desesperada no telefone. Ele havia desmaiado e estava em uma ambulância a caminho do hospital.

Quando chegou lá, o olhar do médico já dizia tudo. Ela não quis saber. Correu para fora do hospital desesperada. Seu mundo havia deixado de existir. Mesmo anos depois, nunca soube exatamente o que havia acontecido. Na verdade não importava. Tudo que sabia é que ele não estava mais lá.

***

Aquela mensagem eletrônica tinha sido gravada há muito tempo, numa época em que eles ainda nem se conheciam. Mas era a única oportunidade que ela tinha de ouvir novamente aquela voz.

(Ressuscitando textos que eu tinha guardado no drive e nunca tinha publicado. Estou com preguiça de revisar e editar, então deem um desconto).

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