Conto – O Músico


Já faziam algumas horas que era noite e o garoto de não mais de 16 anos saia do bar com sua guitarra nas costas enquanto suspirava tristemente. Não tinha sido uma boa apresentação. A maioria das pessoas ainda não estava pronta para aquele tipo de música, e a apresentação de hoje provara isso, com reações que tinham variado de total indiferença para latas de cerveja sendo arremessadas no palco. Tinha também o fato de que aquela cidade era bem do interior (do tipo que hoje em dia nem teria um mc donalds pra ser o point dos jovens do local). A maioria das pessoas preferia ouvir algo mais tradicional, e não aquele “barulho” que ele tinha se acostumado a produzir.

“Você tem uma voz ótima, e seu talento com instrumentos é inigualável! Se você se esforçar pode ser ótimo!”

Era o que todos diziam. E ele queria acreditar naquilo. Mas era dificil demais e o que sustentava aquilo talvez fosse apenas a teimosia. o fundo havia também a esperança. Esperança de que aquele poderia ser um ótimo estilo musical, por enquanto apenas incompreendido.

Passou a mão pelo topete e fechou sua jaqueta de couro. Estava frio naquela noite, mas ele resolveu andar o caminho até casa. Na verdade ele não tinha certeza se deveria voltar pra lá imediatamente. Pensou em ficar em um hotel durante a noite, já que seus pais não ficariam felizes ao saber que o filho mais uma vez estivera tentando a sorte durante a noite. Haviam dois hoteís na cidade onde o garoto morava. Um deles costumava não ter água quente. O outro frequentemente tinha problemas com eletricidade. Ainda não tinha se decidido para onde iria quando chegou no cruzamento principal da cidade.

Se fosse para frente, poderia ir pra casa. Se fosse para algum dos lados, iria para algum dos hotéis. Perdido em seus pensamentos, ele ainda não havia percebido que algo estava muito errado naquela noite. Não havia uma única alma viva passando por lá. Nenhum pedestre, nem um único carro. Ele não chegou a perceber isso. Sentou-se na beira da calçada, pensando no que faria a seguir. E teve seus pensamentos interrompidos, quando um homem se sentou ao seu lado.

É dificil descrever aquele homem. Estava vestido de preto, mas não tinha nenhum traço notável. Pensando bem, talvez o melhor a se dizer é que não havia nada o que se descrever. Era como se você olhasse para ele e cada vez que você tentasse se lembrar, mais você detalhes você perderia. Com excessão do olhar. Aquele era um olhar profundo, do tipo que parecia ser capaz de analizar sua alma e ver que você está devendo umas cervejas no boteco da esquina. O garoto não disse nada, então foi o homem de preto quem quebrou o silêncio.

– Parece que foi uma noite dificil hein? Quer um cigarro para relaxar?

– Sim, foi complicada mesmo. E não, obrigado. Eu não fumo. – Recusou o garoto.

– Meu nome é Lucio. E você, como se chama? – O homem de preto olhou para o céu, distraído enquanto dava uma longa tragada em seu cigarro.

– Algumas pessoas me chamam de Aaron…

– É um bom nome. Sabe Aaron, eu estava assistindo seu show lá no bar, queria lhe dar os parabéns. Foi uma ótima apresentação.

Aaron olhou para o homem de preto, sem saber se estava sendo realmente elogiado, ou se era apenas uma gozação. Aparentemente Lucio estava falando sério.

– Obrigado, eu acho. Mas você é uma das poucas pessoas que pensam assim. A platéia parecia estar prestes a dormir, e meus pais dizem que tudo o que eu faço é barulho.

– Talvez eles estejam certo. Pais são dificeis, sabe? Eu fui expulso de minha casa por meu pai.

– Sinto muito saber disso. Com excessão da falta de confiança que eles tem nos meus talentos, acho que me dou bem com meus pais.

– É… – Lucio parecia meio sonhador. – Mas tudo bem. Eu sai de casa, consegui me dar bem e hoje em dia sou tipo o líder do lugar onde eu moro. Me dei bem na vida. E sinceramente, acho que seus pais estão errados em achar que o que você toca é barulho. Ok, talvez seja realmente barulho. Mas tem o seu charme.

Com essas palavras, o homem de preto pegou uma guitarra (Que Aaron tinha certeza que não estava ali alguns momentos antes) e
começou a tocar uma música, diferente de tudo que Aaron já tinha ouvido.

– Me inspirei em você. – Disse Lucio, quando terminou.

– Me sinto honrado. Mas você é muito melhor que eu! – Aaron estava realmente impressionado com a habilidade de Lucio.

– Já ouvi isso muitas vezes. Mas eu acho que você devia ter um pouco mais de fé em suas próprias habilidades musicais.

– E de que adianta ter habilidades musicais? Ninguém nunca vai reconhecer o meu talento, com excessão de alguns amigos. Muita gente acha que eu estou simplesmente perdendo o meu tempo. – Aaron parecia muito frustrado enquanto dizia isso.

– Por enquanto. Eu pretendo apadrinhar esse tipo de música, sabe?

Aaron encarou Lucio por alguns momentos. Era dificil saber se o homem de preto estava falando sério. Em alguns momentos, ele parecia estar saindo de sintonia. Aaron decidiu continuar a conversa, mas demonstrava que estava incrédulo pois encarava o outro homem com uma sombrancelha erguida.

– Apadrinhar. E que diferença isso faria? As pessoas não vão mudar de opinião, esse não é o estilo de música que elas gostam.

– Ah. Você ficaria muito surpreso com o quão influente eu posso ser. – Enquanto dizia isso, Lucio sorriu pela primeira vez. Era um sorriso louco, maquiávelico, um sorriso como Aaron nunca tinha visto antes e nunca mais iria esquecer.

Aaron se levantou. Achou que deveria ir para casa. Não estava se sentindo muito confortável na presença do estranho. Meio sem jeito, começou a se despedir.

– Ahn… A conversa está boa, mas preciso voltar pra casa. Foi um prazer conhece-lo, senhor Lucio.

– Foi um prazer também conhece-lo. Você me inspirou, e poucos são os que fazem isso. Aaron. Espero sinceramente que você continua a ter um pouco de confiança em sua música. Te vejo em onze anos.

No instante seguinte, Aaron piscou. E estranhamente, Lucio não estava mais lá. No entando, havia uma espécie de marca de queimado onde ele estava sentado. Aaron devia ter achado isso estranho, mas por algum motivo a vontade de sair dali era mais forte. As lembranças se esvaiam de sua mente como se fosse água na peneira.

Elvis Aaron Presley voltou para sua casa, e no dia seguinte já não se lembrava mais do acontecido.

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