Escolha


Esta é uma história que eu sei contar desde o começo. Suas mães eram amigas, e por isso eles costumavam brincar juntos pela vizinhança. Desde que eles se lembravam eram os três e isso os tornou inseparáveis. Seus nomes eram João, Paulo e Lucia. E eram conhecidos por toda vizinhança como os maiores bagunceiros do pedaço. Tinham uma lista de feitos bastante invejável: Destruiam vidraças, perturbavam os idosos e não eram raras as vezes que cada um era levado de volta aos pais, sendo puxado pelas orelhas com uma cara de choro e inocência. Só que no fundo todo mundo gostava deles. Eram crianças e eram adoráveis.

Só que nada dura para sempre. A vida é uma caixinha de surpresas e tudo muda. Lá pela oitava série, Lucia se tornou um pouco mais distante. Ainda estava presente nas brincadeiras, mas começava a sair mais com as suas amigas e muitas vezes acabava deixando aquele grupinho de lado. João e Paulo estavam deixando de ser crianças e começavam a perceber algo que até aquele momento não era tão óbvio para eles: Lucia era uma garota.

O colegial foi a época em que eles se afastaram um pouco. João era o garoto estudioso e esforçado que chamava a atenção de todos por suas notas e desempenho. Paulo era um pouco mais rebelde, mas era bastante popular, inclusive entre os professores. Mas os obstáculos nunca eram maiores do que os sentimentos bons. A amizade daqueles três jovens ainda estava presente. E sempre que possível eles saiam, davam muitas risadas e se divertiam. O problema foi quando Paulo e João descobriram que ambos estavam apaixonados por Lucia.

Havia um respeito mútuo entre os dois. E no fundo também havia um certo medo de que aquela amizade fosse perdida se alguém desse um passo, por isso eles esperaram algum tempo. Só que o amor falou mais alto. E em momentos diferentes, ambos se declararam. Lucia sabia que aquilo ia acabar acontecendo, e deu a mesma resposta para os dois. Não podia decidir. Não ainda. Amava os dois igualmente. E por isso, pediu tempo para tomar uma decisão. Até o final daquele ano, sua escolha seria dada. João e Paulo conversaram, brigaram, fizeram as pazes e no fim concordaram que não haveria ressentimentos entre os dois.

O final do ano se aproximava. E com ele, a data na qual Lucia faria sua escolha. Mas essa escolha nunca aconteceu. Era noite de natal. João voltava pra sua casa distraído. Um motorista bêbado empolgado com a velocidade de seu carro novo.

João estava morto.

Lucia e Paulo choraram muito. Eram parte de um tripé que estava quebrado para sempre. E por mais que gostasse de seu falecido amigo, Paulo o odiou um pouco. Porque sabia que aquilo significava que ele nunca ficaria com Lucia.

Pois a escolha de Lucia nunca foi feita.

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