O leprachaun e o unicórnio


Ele acordou deitado no meio de uma plantação de girassóis. Óbviamente a primeira coisa que percebeu era que estava em uma plantação de girassóis. A segunda é que estava todo vestido de verde de maneira ridícula que teria irritado muitos consultores de moda. E por fim reparou um pequeno detalha insignificante: Ele não se lembrava de nada. Não sabia quem era, nem o que estava fazendo perdido naquele lugar. Mas ele sabia que era um leprachaun. Talvez pelo jeito que estava vestido, pelo seu chapéu e orelhas pontudas, ou por causa da carteira cheia de moedas de ouro que ele estava carregando. Ou pela placa gigantesca que apontava para ele e dizia com letras garrafais e piscantes: “ESTE É UM LEPRACHAUN”.

Levantou-se e observou a paisagem por alguns segundos, tentando lembrar se aquilo era consequencia de uma amnésia alcoolica, mas não conseguia se lembrar se tinha bebido na noite anterior, e por ali não havia nada com o que ele podia se orientar, apenas uma imensidão de amarelo para todos os lados. Então começou a andar. Andou, andou e continuou andando até que uma hora estava cansado e deixou-se capotar na grama verde que servia de tapete e base para aquela estranha plantação.

“O que eu fiz para merecer isso?” – Pensou o Leprachaun.

Quando estava prestes a perder as esperanças, o Leprachaun ouviu barulhos de cascos. Esperançoso, olhou para o horizonte. E um arco-íris vinha em sua direção. Não era um arco-íris qualquer. Era o maior e mais brilhante arco-íris que o Leprachaun jamais vira em sua vida (O fato de estar sem memória talvez ajudasse a dar embasamento a esse fato). Ao mesmo tempo que as cores se misturavam com o céu, elas pareciam estar mais nitidas do que nunca. Quando o arco-íris se aproximou mais, ele finalmente percebeu. Era um cavalo. Mas não um cavalo qualquer. Ele tinha um chifre em sua testa e estava deixando o rastro colorido por onde passava. Era um unicórnio. O leprachaun estava curioso pra saber se aquele arco-íris estava sendo cagado pela criatura mística, mas não ousaria perguntar. O unicórnio parou perto do leprachaun, aparentando curiosidade (Tanto quanto sua cara de cavalo permitia demonstrar):

– Olá Leprachaun. O que você faz aqui, perdido neste campo de girassóis?

– Ah, sabe como é, eu estou aqui perdido neste campo de girassóis. – O Leprachaun não hesitou em responder.

Os dois seres mágicos se encararam por alguns segundos. Dessa vez foi o leprachaun quem quebrou o silêncio.

– Ei. Você voa, não é mesmo?

– Sim, porque pergunta, meu caro leprachaun?

– Eu gostaria que você me levasse para casa. O que pode ser uma tarefa bem dificil, considerando que nem mesmo eu sei onde ela fica.

– Eu posso fazer isso. Nem seria tão dificil assim. Mas o que eu ganho com isso?

O leprachaun parou pra pensar por alguns momentos. Nem se lembrava do próprio nome, quanto mais se tinha algo pra oferecer pro cavalo chifrudo. Daí lembrou-se do ouro que estava carregando na carteira e o mostrou pro unicórnio. O unicórnio torceu sua cara de cavalo em algo que parecia um sorriso e disse:

– Proposta aceita. Suba nas minhas costas! Próxima parada, casa do leprachaun sem memória!

Cavalgaram o caminho do arco-íris durante muito tempo. Foi um trajeto muito estranho. Passaram pela estátua da liberdade, pelos jardins suspensos da babilônia, e pelos portões do inferno. Deram carona para um centauro de duas pernas, brigaram com sereias e alimentaram cães de três cabeças.

Para o leprachaun, aquela aventura durou uma eternidade que pareceram horas. Segundo o unicórnio, não se passaram mais do que trinta minutos. Talvez tenha a ver com a velha teoria de que o tempo passa quando estamos nos divertindo e nessa linha de pensamento podemos considerar que o contrário também é válido.

Depois de tantas aventuras, chegaram em uma espécie de floresta. Mas que não era exatamente uma floresta. Tudo ali era verde, mais verde do que uma floresta toda pintada de verde depois de ter sido atingida por uma chuva de água verde.

O leprachaun desceu das costas do unicórnio e entregou a ela todas suas moedas de ouro. Mas foi aí que o Leprachaun fez algo que não deveria ter feito. Ele não tinha certeza do porqu, talvez tivesse sido sua natureza de leprachaun, ou porque ele estava com a bunda doendo depois de passar tanto tempo nas costas do unicórnio. Mas ele resolveu tirar um sarro da cara do animal místico:

– Sabe uma coisa engraçada? – Perguntou.

– O que? – O unicórnio parecia genuinamente interessado no que o leprachaun tinha a dizer. Ou tão interessado quanto um unicórnio pode parecer.

– Eu te paguei com ouro de leprachaun. Você sabe o que acontece com o ouro de leprachaun?

Não foi preciso que o unicórnio respondesse. Todas as moedas que ele tinham em seus cascos começaram a brilhar intensamente. Por alguns momentos eram moedas magnificas e brilhantes. Nos segundos seguintes se dissolveram em purpurina dourada até que não restou nada para contar história. Sim, moedas de leprachaun desaparecem depois de usadas. É um bom recurso para pagar a conta, se você pretende dar no pé antes que as moedas desapareçam.

O unicórnio parecia desolado. Mas de repente, uma expressão semelhante a satisfação (ou dor de barriga) se passou pelo rosto do unicórnio e ele riu:

– Mwahahahahahahaha! – Imagine uma risada bem maligna aqui – Você me pagou com dinheiro imaginário. Eu fui enganado. Mas tudo bem, pois se você parar pra pensar… Eu sou um unicórnio, e um unicórnio também é um animal imaginário. Então eu não poderia ter levado você a lugar nenhum.

E com essas palavras, o unicórnio desapareceu em uma nuvem de purpurina, tal qual o ouro que estava em suas patas alguns momentos antes. E o leprachaun percebeu que estava novamente no campo de girassóis onde acordara meia hora antes. O unicórnio era fruto de sua imaginação doentia, então não poderia te-lo levado pra casa. Indignado, o leprachaun resolveu andar novamente pra ver se chegava em algum lugar.

Só que ele não foi muito longe, pois depois de andar alguns metros, um pensamento terrível surgiu na cabeça do leprachaun e ele finalmente entendeu porque havia acordado sem memórias no meio daquele campo de girassóis. Era porque não existiam memórias desde o começo. O leprachaun não era diferente de seu ouro, ou diferente daquele unicórnio. Ele também era um ser imaginário e como tal não existia.

E com esse súbito entendimento da vida, o leprachaun desapareceu em uma nuvem de purpurina e também deixou de existir.

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