A Loja de Memórias de Vovó Anástacia

Você tem que prestar bastante atenção no caminho que está fazendo. Consulte seus mapas regularmente e tome cuidado para não tropeçar nos buracos que ponteiam o caminho bastante irregular. Tampe o nariz para evitar o cheiro de esgoto que empesteia a rua e segure bem sua carteira para não acabar vítima dos trombadinhas que habitam a região. Se você tiver sorte e fizer tudo isso certo, vai descobrir que existe uma pequena viela escondida no fundo de uma rua em um bairro pobre de uma cidade bem conhecida. E se você prestar muita atenção, vai descobrir uma pequena placa, pintada toscamente em letras vermelhas colocada de qualquer jeito sobre uma porta de madeira mal encaixada, com os dizeres: “Loja de memórias da vovó Anastácia”.

Vovó Anastácia costuma estar sentada do lado da porta, fumando um cachimbo e olhando para a movimentação em frente de sua casa. Ninguém se atreve a incomodar a boa velhinha, pois todos a temem e sabem de alguma forma que ela deve ser respeitada. Vovó Anastácia sempre esteve lá naquela casa. Desde que o mais velho dos moradores da região consegue se lembrar. Segundo Anacleto, um vizinho de 95 anos, ela já era uma velha quando seu avô era ainda uma criança de colo. Ninguém nunca pensou em questionar a longevidade sobrenatural da anciã, que ganha sua vida comprando e vendendo memórias.

Como funciona esse negócio? Bom, todos tem algo que querem esquecer. Um evento traumático, um coração partido. Uma pessoa que nos machuca ou um lugar para o qual não queremos voltar. Não importa o tamanho da memória ou a sua intensidade. Vovó Anastácia pode fazer com que você se esqueça disso. Ela realiza alguns rituais estranhos e inusitados e coloca a essencia de sua memória em uma pequena garrafinha, que coloca numa estante junto de dezenas de outros pequenos infortunios que estão armazenados para sempre. Depois de algumas horas você tem a garantia de sair da casa de Vovó Anastácia sem a memória inconveniente e também alguns reais mais pobre.

Há também a segunda parte, afinal Vovó Anastácia não faria muito dinheiro se fosse apenas fosse esse seu negócio. Seu principal ganha pão é a revenda de memórias. Você pode se perguntar quem vai querer comprar uma memória ruim. E a resposta é simples: A própria pessoa que a principio quis esquecer. No final todos percebem que não podem viver sem aquele vazio em suas mentes. A curiosidade acaba vencendo, e mais cedo ou mais tarde estão de volta a casa de Vovó Anastácia naquela pequena viela escondida no fundo de uma rua em um bairro pobre de uma cidade bem conhecida. E lá eles pagam qualquer preço para recuperar o que já havia sido seu em algum ponto.

Assim a loja de memórias da Vovó Anastácia continua prosperando…

(Parte de um pequeno desafio com a Marina e a Nana)

Conto sobre um conto

(Para entender melhor o que motivou a escrita deste conto, favor ler este post. Não gostei muito do resultado final, mas paciência)

Era uma cidade muito pequena, do tipo que de carro você acabaria passando por tudo sem nem perceber direito que havia passado por uma cidade. E junto dela havia um rio. Se você prestasse bastante atenção, ia perceber que havia um pedaço de terra coberto por grama na beira d’água. Deitados ali, como se não houvesse nada com o que se preocupar no mundo, estavam duas pessoas. Um homem e uma mulher, aparentemente jovens saudáveis. Ele estava deitado com os olhos fechados com a cabeça sobre o colo dela. Conversavam, trocavam ideias como sempre faziam desde muito tempo. Foi ele quem puxou o assunto:

- Ei, já pensou que legal seria se nós dois estivessemos vivendo em um conto?

- Explique melhor. – Ela ergueu as sombrancelhas. Já estava acostumada com aquele tipo de ideia maluca vindo dele, mas sempre valia a pena ouvir o que havia para ser dito.

Ele se sentou e ambos se encararam por alguns segundos e em seguida se beijaram.

- Ah, ia ser muito legal. Imagine, não precisar se preocupar com as consequencias? O mundo seguiria um roteiro pré definido, então o que quer que nós fizessemos, estaria dentro do script.

- Que papo maluco. Infelizmente pra você, estamos na vida real. Isto não é um conto.

Ele coçou o cavanhaque, despreocupadamente. Olhou para o céu por alguns segundos. Ela já havia visto aquele hábito se repetir milhões de vezes, mas nunca se cansava de observa.. Ele voltou a falar:

- Ah, talvez seja um conto mesmo. Nos contos, a ação começa a se desenvolver em uma cena aleatória, ou seja: Nossa vida começou naquela cena. Você se lembra de algo que aconteceu antes de estarmos aqui sentados na grama conversando?

- Claro que me lembro. Nós dois nos conhecemos desde pequenos, começamos a namorar e agora estamos aqui, adiando uma conversa séria sobre o nosso futuro.

- Eu sei. Estou tentando adiar isso ao máximo possível. Acho que se isso fosse um conto, estariamos ouvindo a voz do narrador, certo?

Minha voz. Não, eles não estão ouvindo a narração. Ela suspirou e trouxe novamente a conversa ao ponto que precisava ser discutido.

- Vamos falar sério. Nós dois fomos aprovados em faculdades diferentes, em pontos diferentes do país. E nós dois não acreditamos em relacionamentos a distância. Acho que existe apenas uma conclusão óbvia a se chegar, certo?

- Sabe, se isso fosse um conto, poderiamos descobrir agora que eu tenho o poder de se teleportar. – Ele disse sem olhar para ela. – Daí poderiamos continuar a nos ver, pra sempre.

- A vida real não é assim tão fácil. Você sabe que isto está sendo dificil para mim também, não mude de assunto. Por favor, aceite que esta é a última vez que estamos juntos, sendo parte de um casal. Quando sairmos daqui, acabou. Então não vamos desperdiçar o tempo que temos juntos.

Ele estava desolado. Queria muito que sua vida fosse um conto, que as coisas dessem certo. As coisas na vida real nem sempre acontecem do jeito que queremos. Algumas vezes pessoas que pareciam ser protagonistas morrem, coincidências estranhas não acontecem, e pessoas acabam tendo que se separar, como aconteceu com o casal desta história.

Eles ficaram por lá discutindo e conversando por mais algumas horas. A conversa foi pontuada por beijos e carinhos tímidos. Ambos queriam conservar na memória aquela ultima vez. Estava de noite quando ela se levantou e finalmente foi embora. Ele ficou ali por mais algum tempo. Na verdade, por muito tempo, esperando o sol raiar, infeliz. E no fim, quem diria? Ele estava certo. Sua vida era um conto, só que ele havia se esquecido de um pequeno detalhe: Nem todos contos possuem um final feliz.

Mas não sou um sádico incorrigível. Há espaço para acreditar que aquela não foi a ultima vez que os dois se viram. E se posso me permitir um pequeno epílogo, talvez muitos anos mais tarde, apenas talvez, num bar naquela mesma cidade num futuro nem tão distante assim vejo os dois se encontrando novamente. Anos mais velhos, bagagem mais pesada, sorriso tímido no rosto de ambos, um ar de quem sabiam finalmente o que queriam da vida. E talvez eles irão conversar e o que acontecerá, deixo a cargo da imaginação de quem está lendo este conto.

Conto – O Músico

Já faziam algumas horas que era noite e o garoto de não mais de 16 anos saia do bar com sua guitarra nas costas enquanto suspirava tristemente. Não tinha sido uma boa apresentação. A maioria das pessoas ainda não estava pronta para aquele tipo de música, e a apresentação de hoje provara isso, com reações que tinham variado de total indiferença para latas de cerveja sendo arremessadas no palco. Tinha também o fato de que aquela cidade era bem do interior (do tipo que hoje em dia nem teria um mc donalds pra ser o point dos jovens do local). A maioria das pessoas preferia ouvir algo mais tradicional, e não aquele “barulho” que ele tinha se acostumado a produzir.

“Você tem uma voz ótima, e seu talento com instrumentos é inigualável! Se você se esforçar pode ser ótimo!”

Era o que todos diziam. E ele queria acreditar naquilo. Mas era dificil demais e o que sustentava aquilo talvez fosse apenas a teimosia. o fundo havia também a esperança. Esperança de que aquele poderia ser um ótimo estilo musical, por enquanto apenas incompreendido.

Passou a mão pelo topete e fechou sua jaqueta de couro. Estava frio naquela noite, mas ele resolveu andar o caminho até casa. Na verdade ele não tinha certeza se deveria voltar pra lá imediatamente. Pensou em ficar em um hotel durante a noite, já que seus pais não ficariam felizes ao saber que o filho mais uma vez estivera tentando a sorte durante a noite. Haviam dois hoteís na cidade onde o garoto morava. Um deles costumava não ter água quente. O outro frequentemente tinha problemas com eletricidade. Ainda não tinha se decidido para onde iria quando chegou no cruzamento principal da cidade.

Se fosse para frente, poderia ir pra casa. Se fosse para algum dos lados, iria para algum dos hotéis. Perdido em seus pensamentos, ele ainda não havia percebido que algo estava muito errado naquela noite. Não havia uma única alma viva passando por lá. Nenhum pedestre, nem um único carro. Ele não chegou a perceber isso. Sentou-se na beira da calçada, pensando no que faria a seguir. E teve seus pensamentos interrompidos, quando um homem se sentou ao seu lado.

É dificil descrever aquele homem. Estava vestido de preto, mas não tinha nenhum traço notável. Pensando bem, talvez o melhor a se dizer é que não havia nada o que se descrever. Era como se você olhasse para ele e cada vez que você tentasse se lembrar, mais você detalhes você perderia. Com excessão do olhar. Aquele era um olhar profundo, do tipo que parecia ser capaz de analizar sua alma e ver que você está devendo umas cervejas no boteco da esquina. O garoto não disse nada, então foi o homem de preto quem quebrou o silêncio.

- Parece que foi uma noite dificil hein? Quer um cigarro para relaxar?

- Sim, foi complicada mesmo. E não, obrigado. Eu não fumo. – Recusou o garoto.

- Meu nome é Lucio. E você, como se chama? – O homem de preto olhou para o céu, distraído enquanto dava uma longa tragada em seu cigarro.

- Algumas pessoas me chamam de Aaron…

- É um bom nome. Sabe Aaron, eu estava assistindo seu show lá no bar, queria lhe dar os parabéns. Foi uma ótima apresentação.

Aaron olhou para o homem de preto, sem saber se estava sendo realmente elogiado, ou se era apenas uma gozação. Aparentemente Lucio estava falando sério.

- Obrigado, eu acho. Mas você é uma das poucas pessoas que pensam assim. A platéia parecia estar prestes a dormir, e meus pais dizem que tudo o que eu faço é barulho.

- Talvez eles estejam certo. Pais são dificeis, sabe? Eu fui expulso de minha casa por meu pai.

- Sinto muito saber disso. Com excessão da falta de confiança que eles tem nos meus talentos, acho que me dou bem com meus pais.

- É… – Lucio parecia meio sonhador. – Mas tudo bem. Eu sai de casa, consegui me dar bem e hoje em dia sou tipo o líder do lugar onde eu moro. Me dei bem na vida. E sinceramente, acho que seus pais estão errados em achar que o que você toca é barulho. Ok, talvez seja realmente barulho. Mas tem o seu charme.

Com essas palavras, o homem de preto pegou uma guitarra (Que Aaron tinha certeza que não estava ali alguns momentos antes) e
começou a tocar uma música, diferente de tudo que Aaron já tinha ouvido.

- Me inspirei em você. – Disse Lucio, quando terminou.

- Me sinto honrado. Mas você é muito melhor que eu! – Aaron estava realmente impressionado com a habilidade de Lucio.

- Já ouvi isso muitas vezes. Mas eu acho que você devia ter um pouco mais de fé em suas próprias habilidades musicais.

- E de que adianta ter habilidades musicais? Ninguém nunca vai reconhecer o meu talento, com excessão de alguns amigos. Muita gente acha que eu estou simplesmente perdendo o meu tempo. – Aaron parecia muito frustrado enquanto dizia isso.

- Por enquanto. Eu pretendo apadrinhar esse tipo de música, sabe?

Aaron encarou Lucio por alguns momentos. Era dificil saber se o homem de preto estava falando sério. Em alguns momentos, ele parecia estar saindo de sintonia. Aaron decidiu continuar a conversa, mas demonstrava que estava incrédulo pois encarava o outro homem com uma sombrancelha erguida.

- Apadrinhar. E que diferença isso faria? As pessoas não vão mudar de opinião, esse não é o estilo de música que elas gostam.

- Ah. Você ficaria muito surpreso com o quão influente eu posso ser. – Enquanto dizia isso, Lucio sorriu pela primeira vez. Era um sorriso louco, maquiávelico, um sorriso como Aaron nunca tinha visto antes e nunca mais iria esquecer.

Aaron se levantou. Achou que deveria ir para casa. Não estava se sentindo muito confortável na presença do estranho. Meio sem jeito, começou a se despedir.

- Ahn… A conversa está boa, mas preciso voltar pra casa. Foi um prazer conhece-lo, senhor Lucio.

- Foi um prazer também conhece-lo. Você me inspirou, e poucos são os que fazem isso. Aaron. Espero sinceramente que você continua a ter um pouco de confiança em sua música. Te vejo em onze anos.

No instante seguinte, Aaron piscou. E estranhamente, Lucio não estava mais lá. No entando, havia uma espécie de marca de queimado onde ele estava sentado. Aaron devia ter achado isso estranho, mas por algum motivo a vontade de sair dali era mais forte. As lembranças se esvaiam de sua mente como se fosse água na peneira.

Elvis Aaron Presley voltou para sua casa, e no dia seguinte já não se lembrava mais do acontecido.

Escolha

Esta é uma história que eu sei contar desde o começo. Suas mães eram amigas, e por isso eles costumavam brincar juntos pela vizinhança. Desde que eles se lembravam eram os três e isso os tornou inseparáveis. Seus nomes eram João, Paulo e Lucia. E eram conhecidos por toda vizinhança como os maiores bagunceiros do pedaço. Tinham uma lista de feitos bastante invejável: Destruiam vidraças, perturbavam os idosos e não eram raras as vezes que cada um era levado de volta aos pais, sendo puxado pelas orelhas com uma cara de choro e inocência. Só que no fundo todo mundo gostava deles. Eram crianças e eram adoráveis.

Só que nada dura para sempre. A vida é uma caixinha de surpresas e tudo muda. Lá pela oitava série, Lucia se tornou um pouco mais distante. Ainda estava presente nas brincadeiras, mas começava a sair mais com as suas amigas e muitas vezes acabava deixando aquele grupinho de lado. João e Paulo estavam deixando de ser crianças e começavam a perceber algo que até aquele momento não era tão óbvio para eles: Lucia era uma garota.

O colegial foi a época em que eles se afastaram um pouco. João era o garoto estudioso e esforçado que chamava a atenção de todos por suas notas e desempenho. Paulo era um pouco mais rebelde, mas era bastante popular, inclusive entre os professores. Mas os obstáculos nunca eram maiores do que os sentimentos bons. A amizade daqueles três jovens ainda estava presente. E sempre que possível eles saiam, davam muitas risadas e se divertiam. O problema foi quando Paulo e João descobriram que ambos estavam apaixonados por Lucia.

Havia um respeito mútuo entre os dois. E no fundo também havia um certo medo de que aquela amizade fosse perdida se alguém desse um passo, por isso eles esperaram algum tempo. Só que o amor falou mais alto. E em momentos diferentes, ambos se declararam. Lucia sabia que aquilo ia acabar acontecendo, e deu a mesma resposta para os dois. Não podia decidir. Não ainda. Amava os dois igualmente. E por isso, pediu tempo para tomar uma decisão. Até o final daquele ano, sua escolha seria dada. João e Paulo conversaram, brigaram, fizeram as pazes e no fim concordaram que não haveria ressentimentos entre os dois.

O final do ano se aproximava. E com ele, a data na qual Lucia faria sua escolha. Mas essa escolha nunca aconteceu. Era noite de natal. João voltava pra sua casa distraído. Um motorista bêbado empolgado com a velocidade de seu carro novo.

João estava morto.

Lucia e Paulo choraram muito. Eram parte de um tripé que estava quebrado para sempre. E por mais que gostasse de seu falecido amigo, Paulo o odiou um pouco. Porque sabia que aquilo significava que ele nunca ficaria com Lucia.

Pois a escolha de Lucia nunca foi feita.

O leprachaun e o unicórnio

Ele acordou deitado no meio de uma plantação de girassóis. Óbviamente a primeira coisa que percebeu era que estava em uma plantação de girassóis. A segunda é que estava todo vestido de verde de maneira ridícula que teria irritado muitos consultores de moda. E por fim reparou um pequeno detalha insignificante: Ele não se lembrava de nada. Não sabia quem era, nem o que estava fazendo perdido naquele lugar. Mas ele sabia que era um leprachaun. Talvez pelo jeito que estava vestido, pelo seu chapéu e orelhas pontudas, ou por causa da carteira cheia de moedas de ouro que ele estava carregando. Ou pela placa gigantesca que apontava para ele e dizia com letras garrafais e piscantes: “ESTE É UM LEPRACHAUN”.

Levantou-se e observou a paisagem por alguns segundos, tentando lembrar se aquilo era consequencia de uma amnésia alcoolica, mas não conseguia se lembrar se tinha bebido na noite anterior, e por ali não havia nada com o que ele podia se orientar, apenas uma imensidão de amarelo para todos os lados. Então começou a andar. Andou, andou e continuou andando até que uma hora estava cansado e deixou-se capotar na grama verde que servia de tapete e base para aquela estranha plantação.

“O que eu fiz para merecer isso?” – Pensou o Leprachaun.

Quando estava prestes a perder as esperanças, o Leprachaun ouviu barulhos de cascos. Esperançoso, olhou para o horizonte. E um arco-íris vinha em sua direção. Não era um arco-íris qualquer. Era o maior e mais brilhante arco-íris que o Leprachaun jamais vira em sua vida (O fato de estar sem memória talvez ajudasse a dar embasamento a esse fato). Ao mesmo tempo que as cores se misturavam com o céu, elas pareciam estar mais nitidas do que nunca. Quando o arco-íris se aproximou mais, ele finalmente percebeu. Era um cavalo. Mas não um cavalo qualquer. Ele tinha um chifre em sua testa e estava deixando o rastro colorido por onde passava. Era um unicórnio. O leprachaun estava curioso pra saber se aquele arco-íris estava sendo cagado pela criatura mística, mas não ousaria perguntar. O unicórnio parou perto do leprachaun, aparentando curiosidade (Tanto quanto sua cara de cavalo permitia demonstrar):

- Olá Leprachaun. O que você faz aqui, perdido neste campo de girassóis?

- Ah, sabe como é, eu estou aqui perdido neste campo de girassóis. – O Leprachaun não hesitou em responder.

Os dois seres mágicos se encararam por alguns segundos. Dessa vez foi o leprachaun quem quebrou o silêncio.

- Ei. Você voa, não é mesmo?

- Sim, porque pergunta, meu caro leprachaun?

- Eu gostaria que você me levasse para casa. O que pode ser uma tarefa bem dificil, considerando que nem mesmo eu sei onde ela fica.

- Eu posso fazer isso. Nem seria tão dificil assim. Mas o que eu ganho com isso?

O leprachaun parou pra pensar por alguns momentos. Nem se lembrava do próprio nome, quanto mais se tinha algo pra oferecer pro cavalo chifrudo. Daí lembrou-se do ouro que estava carregando na carteira e o mostrou pro unicórnio. O unicórnio torceu sua cara de cavalo em algo que parecia um sorriso e disse:

- Proposta aceita. Suba nas minhas costas! Próxima parada, casa do leprachaun sem memória!

Cavalgaram o caminho do arco-íris durante muito tempo. Foi um trajeto muito estranho. Passaram pela estátua da liberdade, pelos jardins suspensos da babilônia, e pelos portões do inferno. Deram carona para um centauro de duas pernas, brigaram com sereias e alimentaram cães de três cabeças.

Para o leprachaun, aquela aventura durou uma eternidade que pareceram horas. Segundo o unicórnio, não se passaram mais do que trinta minutos. Talvez tenha a ver com a velha teoria de que o tempo passa quando estamos nos divertindo e nessa linha de pensamento podemos considerar que o contrário também é válido.

Depois de tantas aventuras, chegaram em uma espécie de floresta. Mas que não era exatamente uma floresta. Tudo ali era verde, mais verde do que uma floresta toda pintada de verde depois de ter sido atingida por uma chuva de água verde.

O leprachaun desceu das costas do unicórnio e entregou a ela todas suas moedas de ouro. Mas foi aí que o Leprachaun fez algo que não deveria ter feito. Ele não tinha certeza do porqu, talvez tivesse sido sua natureza de leprachaun, ou porque ele estava com a bunda doendo depois de passar tanto tempo nas costas do unicórnio. Mas ele resolveu tirar um sarro da cara do animal místico:

- Sabe uma coisa engraçada? – Perguntou.

- O que? – O unicórnio parecia genuinamente interessado no que o leprachaun tinha a dizer. Ou tão interessado quanto um unicórnio pode parecer.

- Eu te paguei com ouro de leprachaun. Você sabe o que acontece com o ouro de leprachaun?

Não foi preciso que o unicórnio respondesse. Todas as moedas que ele tinham em seus cascos começaram a brilhar intensamente. Por alguns momentos eram moedas magnificas e brilhantes. Nos segundos seguintes se dissolveram em purpurina dourada até que não restou nada para contar história. Sim, moedas de leprachaun desaparecem depois de usadas. É um bom recurso para pagar a conta, se você pretende dar no pé antes que as moedas desapareçam.

O unicórnio parecia desolado. Mas de repente, uma expressão semelhante a satisfação (ou dor de barriga) se passou pelo rosto do unicórnio e ele riu:

- Mwahahahahahahaha! – Imagine uma risada bem maligna aqui – Você me pagou com dinheiro imaginário. Eu fui enganado. Mas tudo bem, pois se você parar pra pensar… Eu sou um unicórnio, e um unicórnio também é um animal imaginário. Então eu não poderia ter levado você a lugar nenhum.

E com essas palavras, o unicórnio desapareceu em uma nuvem de purpurina, tal qual o ouro que estava em suas patas alguns momentos antes. E o leprachaun percebeu que estava novamente no campo de girassóis onde acordara meia hora antes. O unicórnio era fruto de sua imaginação doentia, então não poderia te-lo levado pra casa. Indignado, o leprachaun resolveu andar novamente pra ver se chegava em algum lugar.

Só que ele não foi muito longe, pois depois de andar alguns metros, um pensamento terrível surgiu na cabeça do leprachaun e ele finalmente entendeu porque havia acordado sem memórias no meio daquele campo de girassóis. Era porque não existiam memórias desde o começo. O leprachaun não era diferente de seu ouro, ou diferente daquele unicórnio. Ele também era um ser imaginário e como tal não existia.

E com esse súbito entendimento da vida, o leprachaun desapareceu em uma nuvem de purpurina e também deixou de existir.

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